O cenário serrano de Santa Catarina foi transformado ao longo das últimas décadas pela presença marcante das macieiras, que não apenas redesenharam a paisagem de municípios como Fraiburgo e São Joaquim, mas também criaram uma importante base econômica para a região. Plantadas nos anos 1960, essas árvores deram origem a uma cadeia produtiva que hoje posiciona o estado como o maior produtor de maçãs do Brasil — responsável por cerca de metade das exportações nacionais da fruta.
Esse protagonismo, no entanto, não se deve apenas às condições climáticas favoráveis ou ao trabalho dos agricultores. Um dos principais marcos na trajetória da fruticultura catarinense foi a erradicação de uma das pragas mais severas para a cultura das pomáceas: a Cydia pomonella, conhecida popularmente como traça-da-maçã. A certificação oficial de zona livre da praga, concedida em maio de 2014, coroou quase duas décadas de esforços contínuos em vigilância e controle fitossanitário.
Onde a traça-da-maçã se faz presente, os prejuízos são expressivos. A mariposa, em sua fase larval, perfura as frutas e abre caminho para a ação de microrganismos que comprometem a qualidade dos pomares. Desde a detecção da praga no território catarinense, nos anos 1990, medidas sistemáticas foram adotadas para contê-la, envolvendo monitoramento intensivo, restrições ao trânsito de frutas e mudas, e ações coordenadas entre órgãos públicos e o setor produtivo.
A eliminação dessa ameaça trouxe ganhos importantes. Com a ausência da praga, o uso de inseticidas pôde ser reduzido, gerando benefícios econômicos e ambientais, além de diminuir riscos à saúde pública. A vigilância, entretanto, continua: barreiras sanitárias e medidas preventivas seguem em vigor para evitar a reintrodução do inseto.
Outras ameaças, como o cancro europeu — doença causada por fungo que compromete galhos e troncos das macieiras — também são alvo de programas específicos de contenção. Detectado em território catarinense na última década, o patógeno continua presente, mas sua incidência é considerada baixa graças às estratégias de controle e prevenção, que envolvem campanhas educativas, capacitação técnica e rastreabilidade das propriedades produtoras.
Além disso, o cadastramento georreferenciado das áreas de cultivo e a exigência de mudas certificadas são ferramentas centrais na contenção de doenças e na preservação da qualidade dos pomares.
Com uma produção anual superior a 600 mil toneladas, Santa Catarina segue liderando o cultivo de maçãs no Brasil. A força desse setor se reflete também na estrutura organizacional dos produtores, que contam com cooperativas e empresas privadas voltadas tanto para o beneficiamento da fruta in natura quanto para a produção de derivados como sucos e polpas, fortalecendo a economia local e garantindo competitividade no mercado interno e externo.